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Amanhã é outro dia...

...especial, como todos aqui.

 
 

 "Ó Espírito Santo, Amor do Pai e do Filho, Inspirai-me sempre o que devo pensar, o que devo dizer, o que devo calar, o que devo esclarecer, como devo agir, o que devo fazer, para promover a vossa glória, o bem das almas e a minha própria santificação.” S. Tomás da Aquino


É exatamente a oração indicada para o dia de hoje porque é o dia que oficialmente aumento o meu porta-chaves inserindo as chaves do lar. Depois do normal da manhã… fora o facto de hoje ter sido eu a acordar a Rita em vez de ser ela a acordar-me a mim, fomos até ao centro de nutrição. Aproveitei para convidá-la a vir também visto que ela hoje não tinha aulas de viola. Chegadas lá, conhecemos o Osvaldo, que há 3 meses atrás tinha 8Kg e hoje está com 5Kg e pouco. Está completamente esquelético e a mãe já não sabe o que há-de fazer com ele, já esteve em diversos hospitais, inclusivé em Nacala e veio parar aqui em Itoculo. A mãe fala muito bem português, parece bastante nova e já muito sofrida, acho que o pai do miúdo os deixou e ela não tem passado bem. O Osvaldo agora está connosco, ali na casa dos desnutridos e, apesar da irmã dizer que é muito difícil que sobreviva, vamos ter fé de que vai vingar. Quem também não iria sobreviver seria a Ema, um doce com 3 anos de idade, a boca cheia de dentes mas a quem as pernas ainda não respondem e a fala não está a sair. A Ema é filha de uma doente mental aqui do bairro, a avó não tem marido certo, dorme com quem calha e têm um filho de cada homem, portanto um ambiente familiar nada correto para a menina. A mãe está sempre a viajar para algum lado, vai aqui e ali e leva sempre a miudita sem se preocupar nem se lembrar de alimentar ou cuidar minimamente dela. Por ser doente é muitas vezes violada e maltratada, tendo também já a sua grande dose de sofrimento. Depois de se ter cansado da Ema e, um dia a ter deixado na beira do rio, onde um homem se apercebeu da situação e a veio trazer à família, a Ir. Augusta tomou conhecimento da situação e propôs-se a ajudar. Porém não era fácil, ninguém se ia dar ao trabalho de trazer a miúda ao centro todos os dias para a alimentar; e dar o leite ou a papa à mãe também não era solução porque ela não saberia como o fazer. A nossa Ema conseguiu sempre sobreviver sem doenças muito graves, como malárias ou hiv, e está hoje prontinha para mudar de vida completamente. Depois de muito esforço, a Ir. Augusta conseguiu que as irmãs do mosteiro de Nampula a aceitassem lá, mesmo que sem andar nem falar ainda. As pernas estão ainda fraquinhas, mas já se segura de pé durante uns segundos, estimulada e mais forte irá andar depressa e deixar de ter calos nos joelhos e nas mãos de só gatinhar. A Rita hoje esteve a brincar com ela e a fazer exercícios vocais e é bem explícito que ela não fala ainda porque não é minimamente estimulada porque ela repete tudo, o tatata, o papapa, todos esses sons assim ela consegue repetir na perfeição, é só mesmo falta de estímulo, falta de cuidado, uma grande falta de atenção. A miudita que a traz ao centro todas as semanas, acho que é tia dela, deve ter uns 5 ou 6 anos, não mais do que isso, e não falha a trazê-la e a mandar os recados para a família, embora esta não cuide bem, os recados chegam. Ela hoje ao ouvir-nos a motivar a Ema começou a repetir os exercícios e a fazer ela também… foi muito giro de se ver como um ser com mais meia dúzia de meses consegue ser assim responsável por outro. O Damasceno e outro miudito também apareceram e consegui-lhes arrancar um sorriso. Tirámos muitas fotos hoje… com a Ema sobretudo pois ela vai para o mosteiro e não podíamos perder a oportunidade de estar mais um tempo com ela.

A Seguir a Rita foi para casa e eu fui com a Ir. Augusta para o lar [Educação na Esperança], como havíamos combinado. Ver as inscrições, quem já entregou recibo e quem ainda nem se sabe se virá ou não… é tudo muito incerto, mas eu tenho que começar a trabalhar a sério nisto, ainda que não hajam grandes certezas do número de laristas deste ano. Estivémos a experimentar e a arrumar as chaves perdidas e a começar a organizar todo o espaço do escritório. Deu um trabalhão, só termos que andar a experimentar chaves em todas as portas para ver qual abriam. No final aínda fomos cortar uma bananeira que tinha caído em cima de um fio de electricidade que liga a cozinha exterior à casa. A Irmã tem jeito com a catana, eu tenho força, e complementámos a "cena". Almoçámos, hoje também sem os irmãos Makimbas mas com a Clem já a melhorar. Depois de almoço fui com o P. Raúl à obra [da Biblioteca Aprender para Desenvolver]. Os pedreiros até não são maus, e sabem fazer as coisas bem, são é lentos que dói, porque este tipo de obra também não é algo que eles façam todos os dias. Aqui não pode haver bicho a comer a madeira, não pode haver infiltrações nem coisas menos bem feitas… tem que estar tudo "nos trinques" e temos que exigir isso mesmo para que eles trabalhem… Ah, e temos que exercer pressão e estar muito em cima… é assim também em todo o lado "né".
 
Tinha contado vir a pé da biblioteca até casa mas deu-me a preguiça e vim de carro com o padre que tinha levado uns barrotes para deixar lá. Deitei-me na cama a ler umas coisas do lar, acordei aí uns 30 minutos depois com a Rita a chamar-me para a reunião que tínhamos com a Ir. Adelaide por causa da escolinha. Depois de preguiçar um pouco, lá fomos planificar o ano com a irmã. O projeto é muito giro e interessante, e a irmã têm ideias muito giras e muita vontade de as concretizar, porém não é fácil, ainda para mais porque falam só macua ainda estes pequenos. A Argentina e a Felizmina o ano passado estavam cá para a ajudar, mas este ano parece que vão embora e ela não pode fazer muita conta com elas. Falou-se em arranjar alguém… deve ter que se pagar a alguém, ainda que pouco para ajudar com estes miúdos. Programa semanal, tema do mês, atividades propostas, tudo ficou registado no computador… pelo menos a maior parte ficou feita. A Ir. Adelaide apareceu entretanto e a Rita esteve a cortar-lhe o cabelo… eu disse que se fosse eu não me metia lá mas, a irmã disse que arriscava… Vah pronto eu confesso que até não ficou mau de todo. Depois de termos ido para casa a apanhar alguma chuva, aprontámo-nos para a Eucaristia. Eu tentei que a Rita me fizesse uma trança decente mas acho que ela hoje deixou todos os seus dotes de cabeleireira na irmã.
 
A missa hoje é já a da Epifania do Senhor, e celebrou-se já "o aniversário das irmãs”, celebra-se o início da congregação. A Rita estava a "panicar” e eu também não estava muito confortável, aliás, acho que ninguém estava. A capela estava cheia de bichos voadores com asas a cair… o chão estava cheio, mas cheio cheio de asas e desses bichos estúpidos e foi frustrante mesmo… passado um bocado começaram a perder as asas e a morrer no chão… que bichos estranhos. Bom, terminada a celebração, e a parte do convívio, apanhei boleia na sombrinha da Gracinda até casa e o jantar foi a seguir, hoje dentro de casa para variar. Jogámos uno e o P. Makimba 7º ganhou 3 vezes… eu ganhei 1 e o Dino outra. Agora era para estar a fazer algumas grelhas para o lar… mas não, vou mesmo para o facebook um pouquinho e dormir de seguida.
 

Amanhã é outro dia … especial como todos aqui.


Boa Noite"

Alexandra Martins, voluntária em Itoculo durante o ano 2014.
Texto escrito dia 4 de janeiro de 2014

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