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Missionários Espiritanos contribuem para o Sol Nascer para Todos

O P. Tony Neves é Missionário do Espírito Santo em Roma, atual responsável pelo Gabinete de Justiça, Paz, Integridade da Criação e Diálogo Inter-Religioso, e está agora também responsável por coordenar os contactos com os espiritanos da Península Ibérica e várias regiões da América Latina. Missionário em Angola, Portugal e em Roma desde 2018, o P. Tony viveu de perto os efeitos da pandemia neste país que foi um dos mais atingidos da Europa. Agora, faz uma reflexão sobre os desafios da COVID à Missão de hoje na Igreja e na Congregação dos Missionários do Espírito Santo em particular.


 

P. Tony Neves Roma


Desafios da COVID à Missão hoje

Fomos surpreendidos por um inimigo que não vemos: a COVID chegou sem avisar e fechou-nos em casa. A contaminação alastrou, os hospitais não conseguiram responder, morreu muita gente, a economia quase parou, o mundo abanou e ainda não sabemos quantas mais pessoas esta onda vai afogar. Enquanto missionários Espiritanos, tentamos viver este tempo de pandemia como um momento de graça e de solidariedade.

Além de acompanhar o que se passava no mundo, tentei intervir pela oração, pela escrita e por múltiplas intervenções mediáticas[i], através dos media e das redes sociais. Acredito que este tempo de dor abriu portas a um futuro melhor, pondo em causa os nossos deficits de fraternidade humana e denunciando todas as práticas de economia que matam. Desenham-se tempos novos que, para nós Espiritanos, implicam conversão e compromisso.



Praticar a Caridade


Sem Igrejas abertas, sem culto presencial, sem catequeses e reuniões pastorais, parecia que restavam poucas alternativas à Missão. A mensagem cristã passou pelos media, com muita criatividade. Mas, sobretudo, houve uma aposta forte no trabalho feito pelas Missões, centros paroquiais e outras instituições sociais, na atenção aos mais frágeis. Gostei muito de ver o empenho das paróquias com as pessoas idosas e sós. Fiquei impressionado com a atenção dada aos imigrantes pobres e sem abrigo. Marcou-me o apoio expresso aos médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, bombeiros e todos os fornecedores de serviços indispensáveis para a sobrevivência do povo e o combate ao vírus. Houve padres, irmãos e irmãs, de diferentes dioceses e institutos que deixaram as suas casas e conventos e foram para os hospitais ou para a rua tratar doentes. Bastantes morreram. Enfim, fecharam-se algumas janelas à Missão, mas abriram-se portas de par em par.



Missão na rede


As redes sociais, com meio mundo fechado em casa, foram o grande espaço de conversa. Para o melhor e para o pior. Para dar notícias e para enganar (tanta ‘fake news’ por aí à solta e tanta facilidade em ligar e desligar…), para dar coragem e para semear pânico. Para ajudar e para complicar. Para deprimir e para espalhar bom humor. Nunca vi tanta piada a circular como neste tempo de confinamento! Fechou tudo o que não era absolutamente essencial estar aberto. Por isso, as Igrejas fecharam e a Missão teve que passar pelos media, sobretudo pela internet e suas redes sociais. Claro que, como pediu o Papa desde o início, não fechamos a caridade à chave! E aí jogamos, como Igreja e Congregação, uma cartada missionária fundamental.



Tempos novos


Muita partilha, bastantes reflexões teológicas e pastorais tentaram ajudar-nos a perceber, como cristãos, que a vida religiosa não se pode confinar às paredes de um edifício (a Igreja) nem às dinâmicas de estruturas como as comunidades, paróquias, capelanias ou movimentos. Há muito mais vida cristã para além daquela a que, regra geral, nos habituamos e que nos agarramos como lapas aos rochedos do mar. Redescobriu-se uma Igreja doméstica, pudemos perceber melhor o espaço a dar à oração, ao silêncio, à meditação pessoal, compreendemos como é importante o exercício criativo da caridade, como é decisivo abrir o coração e encontrar razões de viver em contextos de crise profunda e de tragédia, como somos capazes de dar as mãos e fazer caminho com pessoas e instituições com as quais não nos identificamos… este será, certamente, um dos maiores ganhos missionários para aprofundar no pós-covid.



Um amanhã diferente... melhor!


Cada tragédia obriga o dia seguinte a ser radicalmente diferente. Quando falam em ‘voltar ao normal’, eu fico assustado, pois não quero fazer uma viagem de regresso ao passado. Podemos melhorar, devemos criar um mundo novo. Temos que – como pede o Papa Francisco – combater em simultâneo as duas pandemias: a covid e a indiferença!

Cruzando a ‘Alegria do Evangelho’ com a ‘Querida Amazónia’, passando pela ‘Laudato Si’ e por todas as intervenções (tão fortes, tão interpeladoras…) do papa Francisco, gostaria de lançar algumas linhas de abertura a um futuro missionário diferente: vamos apostar num estilo de vida mais simples, mais fraterno, mais inclusivo, mais ecológico. Vamos tentar reduzir o fosso entre ricos e pobres. Vamos apostar mais na saúde e educação do que nas armas, na droga e nos tráficos humanos. Vamos anunciar e viver com coragem um Evangelho que é libertador de todas as formas de opressão, cruzando as Bem-Aventuranças com as parábolas do Bom Samaritano e do Juízo Definitivo. Ousemos construir projectos de desenvolvimento e solidariedade com as comunidades humanas e eclesiais mais pobres do planeta. Deitemos fora dos hábitos quotidianos tudo o que é ecologicamente negativo. Tentemos investir cada vez mais na Igreja doméstica e numa caminhada de Fé que faça dos cristãos cidadãos responsáveis e comprometidos.

Em suma, como pediu o Papa naquela Praça de S. Pedro vazia em domingo de Ramos da Paixão: ‘A vida não serve se não se serve os irmãos. (…)’Não tenham medo de dar a vida a Deus e aos outros. Digam sim ao amor sem ‘ses’ nem ‘mas’. Não pensemos só naquilo que nos falta. Pensemos no bem que nós podemos fazer’.


Tony Neves CSSp, em Roma

 




[i][i] .Neste período marcado pela covid 19, publiquei o livro ‘A Quatro Mãos , em clave de Fa e Sol’ (com Artur Teixeira, imprimindo em livro os posts publicados no facebook entre 20 de março e 31 de maio), o artigo ‘Podemos reconstruir a Missão da Igreja numa era pós-pandemia’ (revista ‘Igreja e Missão’, 244(2020), pp.171-210) e ainda ‘Covid19: Desafios e alertas à Missão hoje’, texto conjunto publicado em todas as revistas e jornais missionários em julho de 2020.



Nota de publicação: reflexão publicada originalmente no Boletim "Informações Espiritanas" n.º210, de SET-DEZ 2020

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