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Relatos do dia-a-dia: Senhor Militão

A professora Maria Deotilde Carvalho Saraiva participou no projeto "Abraçar a Missão", em 2018. Ao longo do projeto missionário na Cidade das Neves, em São Tomé e Príncipe, visitou o lar de idosos São Francisco. Lá, teve ocasião de conhecer, pelas palavras dos utentes, o trabalho das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, como é que decorre o seu dia-a-dia e as histórias de vida de cada um deles.

 

Durante as próximas semanas iremos aprofundar, através dos relatos da professora Maria Deotilde, a vida quotidiana dos indivíduos que vivem nesta comunidade. 



"É numerosa a comunidade cabo-verdiana residente em S. Tomé e Príncipe. Ela é resultante da vinda de trabalhadores para as roças, sobretudo homens, a partir da década de 40 do século passado, continuando pelas décadas seguintes até à independência. Alguns mandaram vir os familiares, mas outros arranjaram lá uma nova família. Neste momento são pessoas muito idosas, doentes e sem reformas, algumas sem grande apoio familiar. As Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, à frente do Lar de S. Francisco, na cidade das Neves, dão abrigo às pessoas mais débeis e mais carenciadas, tanto material como afetivamente.


Foi no dia 10 de agosto, 6º feira, a primeira vez que visitei o lar de S. Francisco. Pouco passava das 11h e estava muito calor. No pátio, local amplo e acolhedor onde os residentes passam a maior parte do dia, sentados à sombra de uma frondosa árvore que os protege do calor escaldante próprio deste país de clima tropical, iniciei os meus contactos com os idosos. Depois das primeiras conversas logo cheguei à conclusão que a grande maioria dos utentes são cabo-verdianos e são homens. É o caso do Sr. Tomé, Sr. Pedro, Sr. Américo, Sr. Militão e muitos mais.




O dia-a-dia do Senhor Militão



Senhor Militão


O Sr. Militão é um dos residentes mais novos, 75 anos, e ainda muito ativo, quer física, quer mentalmente. 


Logo pelas 6h da manhã começa a varrer o pátio, coberto de folhas e flores, que se desprendem da árvore durante a noite. Um pouco antes do meio-dia vai pôr a mesa para o almoço e quando é preciso, dá o comer a colegas que tem limitações e não conseguem comer sozinhos.


Conversando com ele durante algum tempo, vim a saber que veio trabalhar para a roça Dona Augusta, em 1960, com 17 anos, onde permaneceu até à independência de S. Tomé. Fazia de tudo, limpava o capim, apanhava o cacau, colocava-o a secar e metia-o em sacos para ser exportado. Também trabalhou na apanha do café, mas durante menos tempo. Conta que aí arranjou uma doença pulmonar e devido ao tratamento, (ou falta dele), que lhe fizeram no hospital, resultou uma enorme cicatriz no peito e outra nas costas, que me mostrou para confirmar o que me tinha dito.


Quando a roça fechou, ficou sem trabalho, mas também sem possibilidades de trabalhar, tal era o seu estado de saúde. Nesta situação, doente, sem família e sem recursos, valeu-lhe o acolhimento das Irmãs no Lar de S. Francisco, onde arranjou uma nova família e onde colabora bastante como já referi. Como não tem dificuldade em andar e a Igreja é mesmo ali ao lado, vai sempre à missa ao domingo, assim como outro colega, o Sr. Armando."



Maria Deotilde Carvalho Saraiva
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