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Relatos do dia-a-dia: Senhor Tomé

A professora Maria Deotilde Carvalho Saraiva participou no projeto "Abraçar a Missão", em 2018. Ao longo do projeto missionário na Cidade das Neves, em São Tomé e Príncipe, visitou o lar de idosos "São Francisco". Lá, teve ocasião de conhecer, pelas palavras dos utentes, o trabalho das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, como é que decorre o seu dia-a-dia e as histórias de vida de cada um deles.

 

Nesta semana iremos aprofundar, através dos relatos da professora Maria Deotilde, a vida quotidiana do Senhor Tomé.



"O Sr. Tomé foi o primeiro idoso a quem me dirigi quando entrei no lar. O seu quarto, compartilhado com outro utente, fica na ala esquerda (o lar é em forma de U). É à porta do quarto, sentado numa cadeira, que permanece o dia inteiro, pois é invisual e, portanto, não tem facilidade de se deslocar. Também é ali que come a refeição do meio-dia, auxiliado por um funcionário da casa. Logo no primeiro dia me prontifiquei a substituí-lo nesta tarefa, ficando assim mais liberto para outros serviços, que ali não faltam.





A refeição do almoço consta de um abundante prato de comida, (arroz, massa ou batata, acompanhado por carne ou peixe) e um copo de água de meio litro. Fiquei impressionada pela maneira rápida, quase diria sôfrega, como bebeu a água toda de uma só vez. A seguir comecei a ajudá-lo. Não se fartou de me agradecer e, pegando na minha mão, colocava-a em cima da sua cabeça e dava graças a Deus. E fazia isso várias vezes. Aliás o nome de Deus repetia-o muitas vezes e levantando as mãos juntas em direção ao céu, repetia: "O meu Pai é muito amigo, não se esquece de mim”.


O sr. Tomé é natural de Cabo Verde, de onde veio quando rapaz novo, para trabalhar na roça de Santa Catarina. Sempre sem se lamentar, também me disse que não tem família que o visite, mas "o meu Pai é muito meu amigo”, não se cansa de repetir e repetir.


Não sei porquê, mas o senhor Tomé foi de todos os idosos com quem falei, e falei com todos, o que mais me marcou, e posso dizer aquele que mais trouxe no coração. A sua maneira doce de falar sem uma crítica, um queixume, o seu agradecimento constante, a sua fragilidade, pois estava totalmente dependente, marcaram-me muito. Também nunca mais esquecerei o que me disse no último dia, quando me despedi. Com uma lágrima a rolar-lhe pelo rosto negro e enrugado pelos anos e sofrimento, pegou nas minhas mãos, como fazia muitas vezes, apertou-as e disse-me: "não se esqueça de nós.”


Escusado será dizer que também as minhas lágrimas apareceram e, pegando nas suas mãos, dei-lhe um beijo demorado com a promessa de não os esquecer. E não esquecerei."

 

Maria Deotilde Carvalho Saraiva

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