20 de Janeiro, 2023

Testemunho da voluntária Sara Correia

A Sara Correia participou na Ponte 2022, o projeto de voluntariado fruto da parceria entre os Jovens Sem Fronteiras, os  Missionários do Espírito Santo e a Sol sem Fronteiras. Ao abrigo do projeto, a Sara passou um mês em Caió, na Guiné-Bissau, inserida numa realidade muito diferente da habitual. A experiência partilhada, tanto com a comunidade local como com o grupo, deixou uma grande marca que, agora, a Sara quer partilhar com todos nós através deste testemunho.

Testemunho da Sara

Descrever o projeto ponte parece impossível. Já o tentei fazer através de fotos e agora deste testemunho escrito, mas não há palavras ou imagens que façam jus a esta experiência.

Viver um mês no interior da Guiné-Bissau parecia-me um desafio insuperável, mas ao fim de uns dias em Caió percebi que estava errada. Estar inserida numa comunidade tão unida e acolhedora fez com que nunca sentisse saudades de casa ou das “minhas pessoas”.

A Guiné-Bissau deu-me a oportunidade de estar por inteiro, sem pensar nas tarefas seguintes, na lista das compras ou na discussão do dia anterior. Estive por inteiro e quero acreditar que me dei por inteiro, com a certeza de que não fui salvar ninguém, mas que fui fazer o que era possível, naquele tempo, com os recursos existentes.

Revoltei-me muitas vezes com a sensação de abandono que a população de Caió sentia. Revoltei-me porque era uma sensação legítima e realista, porque são mesmo esquecidos pelo Estado e pelo mundo, deixados ao abandono no meio do mato. Talvez esse seja um dos motivos para a união inigualável desta comunidade e para o amor que nutrem pelas irmãs espiritanas, o facto de não terem mais ninguém a quem recorrer.

Sinto que a Guiné-Bissau me tornou mais pessoa e menos máquina, mais humana, mais ponderada, mais atenta ao mundo dos outros que é certamente diferente do meu. Muitas vezes sinto que ainda não aterrei em Portugal, que estou presa entre o país que me criou e o país que me fez crescer, a minha “Guiné”. Recordo a Guiné-Bissau sempre com um sorriso nos lábios, uma sensação de quente no peito e uma lágrima no canto do olho.

Obrigada à Solsef, aos Jovens sem Fronteiras, aos Espiritanos e às Espiritanas pela oportunidade que me proporcionaram e por continuar a marcar a vida de tantas pessoas no mundo e sobretudo na Guiné.

Sara Correia