Ana Faria é economista do ambiente e, nos últimos tempos, tem estado interessada em questões relacionadas com a Cooperação e a relação das comunidades nos países em desenvolvimento com os recursos naturais. Nesse sentido, a Ana Juntou-se à Solsef, para, nos próximos tempos, escrever esta rúbrica que agora estás prestes a ler: "Às quartas refletimos". Nela irá falar, durante as próximas semanas, sobre este e outros temas. Não percas!
"Porque existe uma Black Friday?
Importada dos Estados Unidos da América e tendo lugar após o Dia de Ação de Graças, a Black Friday destaca-se no calendário das grandes promoções e tem vindo a ganhar expressão em Portugal. Por esta altura, os descontos anunciados por várias marcas e lojas captam a atenção dos portugueses e promovem a compra de variados tipos de produtos, dos menos aos mais tecnológicos.
Com as promoções a estenderem-se por vários dias e sendo os descontos aproveitados não só para antecipar as predas de Natal, mas também para realizar compras pessoais não relacionadas com a quadra festiva,esta altura do ano é marcada por um número de compras acentuado. Em resposta aos grandes descontos, geram-se compras impulsivas e em excesso que contrastam com as ambições de uma economia mais verde marcada por um consumo também ele verde e consciente.
Há quem vire esta ideia ao contrário – não poupe!
Em contrapartida, embora sejam várias as marcas que aderem a estas promoções, também existem aquelas que se distanciam e optam por contrariar o consumo excessivo. Caso da Indagatio, por exemplo, marca portuguesa de roupa para atividades ao ar livre, que decidiu aumentar os preços de todos os produtos em 10 € entre 20 e 30 de novembro e doar 20 € nas compras que sejam realizadas durante esse período a organizações que lutam pela proteção ambiental. A marca portuguesa junta-se a outras marcas nacionais e internacionais, como a Conscious e a Allbirds, que optam por não fazer promoções ou mesmo pelo aumento dos preços.
Da mesma forma, surgem também movimentos que oferecemalternativas mais conscientes à Black Friday tal como a Green Friday, celebrada no mesmo dia e promovendo a doação e reparação de produtos, a compra de produtos ecológicos, entre outras atitudes amigas do ambiente. A adesão a esta iniciativa começa a ganhar expressão, com várias marcas a aderir. A nível internacional, a IKEA lançou a campanha Buy Back Friday sendo que, ao invés de descontos, oferece aos consumidores a oportunidade de vender peças de mobiliário da marca para que possam ser novamente aproveitadas. Já a portuguesa Lemon Jelly optou por oferecer descontos nas coleções antigas, concedendo-lhes "uma segunda oportunidade”.
Dá para tornar uma época de consumo numa época solidária?
Numa onda mais solidária, na terça-feira imediatamente após a Black Friday celebra-se a Giving Tuesday. Ao invés da realização de compras desnecessárias, o movimento apela à doação, angariação e voluntariado. O dia é celebrado em mais de 60 países, tendo tido a sua primeira edição em Portugal no ano passado com a angariação do equivalente a mais de 250.000€. Este ano celebrou-se precisamente ontem, dia 1 de dezembro e a participação dá-se através da plataforma oficial, havendo várias formas de contribuir. No entanto, tal como os descontos que se estendem por vários dias, pode ainda aproveitar o resto da semana para fazer um donativo ou uma compra solidária.
Os movimentos e marcas apresentados constituem apenas alguns exemplos numa corrente que se distancia do consumismo promovido pelos descontos da Black Friday, incentivando os consumidores a repensar as suas compras, refletindo sobre a necessidade das mesmas, bem como acerca das consequências ambientais resultantes. Um estudo realizado pela DECO PROTESTE aponta para que em 2020 os portugueses gastem em média 180 € durante o fim de semana da Black Friday (27 a 29 de novembro).Para terem uma ideia, na Guiné-Bissau este valor poderia ser traduzido em cerca de 6 manuais escolares, 360 cadernos ou mesmo num escorrega, um baloiço e um balancé para equipar um parque infantil – como a Solsef mostrou no projeto Edificando Educação, em 2017/18. Veja aqui e aqui os projetos que a Associação está a desenvolver este ano na Guiné-Bissau.
Em suma, nesta época de consumo apetecível, opte por compras ponderadas e necessárias, e acima de tudo, seja verde e solidário!"
Ana Faria