18 de Agosto, 2022

História de vida da Lígia

A Lígia Marcelina de Sousa nasceu no dia 30 de junho de 2003 em Moçambique, Província de Nampula, no Distrito de Nampula, situado no Norte do país.

O seu pai, Sousa, trabalhava numa indústria de tecelagem e de fabrico de tecidos TECX-MOQUE. Depois de muitos anos, a fábrica teve que fechar, mas não houve qualquer indemnização aos trabalhadores, apesar de todos lutarem em prol dos seus direitos.

Se um despedimento é difícil para qualquer um, no caso da família da Lígia esta situação foi um grande desafio. O pai, na altura, tinha três esposas e um total de 5 filhos, mas, após a morte de uma delas, o pai casou mais uma vez. Desta união com a mulher que viria a ser a mãe da Lígia nasceram, entre 2000 e 2010, seis filhos mais.

A infância da Lígia foi muito instável

Neste contexto, a situação em casa da Lígia era muito instável, mas o maior desafio para esta jovem ainda estava por chegar. Passado algum tempo, os seus pais separam-se e, em consequência, a Lígia foi expulsa. Por isso, sem nenhum recurso, a Lígia foi obrigada a viver na rua por um tempo e teve que trabalhar nos lixeiros para poder sobreviver.

Foi um período muito difícil na vida desta jovem tão corajosa que, afortunadamente, se resolveu com a ajuda da sua mãe. Também, passado algum tempo, os seus pais reconciliaram-se e, pouco a pouco, e graças ao esforço de todos, a família está-se a reconstruir.

Apesar das dificuldades, a Lígia nunca baixou os braços. Desde criança é muito simpática, sonhadora, batalhadora, preocupada e flexível. Segundo as próprias palavras da jovem: “Apesar de toda aflição e falta de condições, passo por grandes momentos de reflexão, pois o que vivi me motiva a insistir, persistir e nunca desistir. Com certeza, o meu maior desejo é mostrar à minha família que nada é melhor do que ser humilde na vida e estudar para ser independente”.

No entanto, apesar da sua tenacidade e entusiasmo, a Lígia tem que lutar contra os costumes de uma sociedade ainda muito patriarcal. Devido à falta de recursos, a sua família pressiona-a constantemente para que case. Também, para algumas pessoas, esta jovem é uma desobediente por querer continuar a estudar. Na verdade, o seu desenvolvimento está “a ser difícil porque não tenho condições financeiras e porque vivo numa família com um raciocínio muito antigo e dependente em casamentos”.

Projetos solidários ajudam a mudar muitas vidas

Por este motivo, em vidas como a da Lígia, projetos solidários como o trabalho social dos Missionários do Espírito Santo em Nampula, podem significar a diferença entre uma vida feliz ou a resignação à falta de oportunidades. Precisamente, a Escola Comunitária São João de Deus, gerida pelos Espiritanos no Bairro de Nampula, foi muito importante para o desenvolvimento desta jovem.

A Lígia começou a estudar em 2009 na Escola Completa 7 de Setembro mas, por causa da distância e da qualidade de ensino, acabou-se mudando no ano seguinte para a Escola Comunitária São João de Deus. Durante os 9 anos seguintes completou o primeiro ciclo do ensino nesta escola, conseguindo-se destacar como a melhor aluna da 8ª à 10ª classe.

Graças ao seu trabalho e ao apoio recebido na Escola Comunitária São João de Deus, a Lígia entrou, em 2019, no Curso Profissional de Gestão Financeira e Patrimonial. Paralelamente, também começou a frequentar no período noturno a 11ª classe até concluir, no ano a seguir, o ensino médio geral. Este foi, em palavras da Lígia, “um grande sacrifício que um dia valerá a pena” e acreditamos que assim será, pois durante a formação profissional já ganhou alguma experiência laboral graças a vários estágiosː

Regresso à Escola Comunitária São João de Deus

Depois de ter concluído a sua formação, a Lígia voltou à escola que a viu a crescer, a Escola Comunitária São João de Deus, para trabalhar na Biblioteca. Nesta infraestrutura, construída no âmbito do nosso projeto “Inovação Educativa”, a Lígia passa os seus dias a ajudar, entre outras tarefas, a alunos que, em muitos casos, vem de famílias vulneráveis como a dela.

Embora tenha um emprego estável, a Lígia continua a sonhar.  Esta jovem quer estudar Medicina Geral fora de Moçambique, mas ciente das dificuldades financeiras, irá concorrer à Universidade Lúrio de Nampula. Neste momento está a preparar-se para fazer os exames de admissão e desde aqui desejamos-lhe muita sorte, apesar de que sabemos que, graças ao seu empenho, não irá precisar!

Conhecemos a história de vida da Lígia através da voluntária Clara Amorim, que está a realizar um ano de Voluntariado Missionário Espiritano na Missão de Nampula. Entre outras tarefas, a Clara trabalha lado a lado com a Lígia na Escola Comunitária São João de Deus, que a Solsef apoiou através do projeto Inovação Educativa. Este projeto foi desenvolvido pela Sol sem Fronteiras em parceria com os Missionários do Espírito Santo. Também teve o cofinanciamento da Misereor, das Campanhas de Solidariedade da Família Espiritana, da Prenda Solidária e dos Presentes Solidários da FEC. Igualmente, contou com a colaboração dos Jovens sem Fronteiras e da FARS.