11 de Maio, 2022

Primeiras semanas da profª Teresa Santos em Bafatá

“Dificuldade Imenso”

Faz duas semanas que cheguei a Bafatá para prosseguir com a última parte do projeto de CAPACITAÇÃO PEDAGÓGICA – Apoio ao desenvolvimento de capacidades na gestão pedagógica dos centros escolares da Missão Católica de Bafatá, destinado aos cerca de 60 educadores e professores destes estabelecimentos de ensino (do pré-escolar ao ensino secundário).

A ONGD Sol sem Fronteiras (Solsef) é a promotora e coordenadora deste projeto que é financiado pelo Instituto Camões, I.P., que tem como parceira Cáritas Diocesana de Bafatá e que conta com o apoio da Associação Ser Mais Valia e o Centro de Formação CFAE Centro-Oeste.

O calor intenso e o pó que se levanta com o vento todas as tardes deixaram-me quase sem voz nesta última semana, pelo que os momentos expositivos foram reduzidos ao mínimo e o envolvimento ativo dos formandos, a solução. Há sempre uma solução mesmo quando não a conseguimos imaginar ou a achamos inatingível. Contudo, já tenho verificado desalento em alguns, pois os problemas são incomensuráveis.

Por aqui, é muito fácil conseguir a adesão destes educadores e professores, mesmo quando lhes lançamos o desafio de atividades expressivas e criativas em pequeno grupo (no primeiro módulo – Comunicação na Docência) a partir do poema “Em que língua escrever” da guineense Odete Semedo e sobre o qual diversas versões interpretativas foram elaboradas, incluindo algumas musicais, como se de um cântico religioso se tratasse ou outras inspiradas em ritmos tradicionais ou de fusão. Os últimos versos: Em crioulo gritarei/A minha mensagem/Que de boca em boca/Fará a sua viagem/ constituíram uma espécie de refrão para todos os grupos, que apresentaram sonoridades muito distintas.

Trabalhamos em português e esperamos que também esta possa vir a ser uma língua na qual sonham, porque significará que a dominam melhor.

Ontem o dia amanheceu cinzento, mas mais fresco, um enorme bando de morcegos esvoaçava baixo e desorganizadamente, prenunciando talvez a estação das chuvas. Disseram-me que a mesma chegará a 15 de maio e impressionou-me esta previsibilidade num mundo tão caótico e imprevisível.

Demos início ao terceiro módulo – O trabalho de orientação em contexto escolar. Sinto que talvez tenha exagerado um pouco na informação que mobilizei para este capítulo do manual de apoio ao estudo. Todavia, esta primeira sessão foi dedicada à história de vida destes educadores, o traçar do seu percurso desde meninos(as) até onde chegaram hoje.

Quê ku bu misti sedu hora ku bu garandi? (o que é que queres ser quando fores grande?). Soa bem em crioulo, mas percebi ontem à noite numa turma só de homens, como foi difícil esse tempo da infância e como para alguns trazer esse passado de volta deixa a voz embargada. A pobreza, a falta de recursos e de oportunidades, o terem que crescer numa família de criação que os transformava em servos, mas que por sorte os deixaram ir à escola e como isto os salvou.

“Dificuldade Imenso” afirmava um dos mais jovens professores. Deu exemplos, mas era doloroso ir mais fundo.

Despedimo-nos pelas 21,30h e ao fechar as janelas lá estava a enorme osga que todas as noites encontro neste ritual e lembrei-me do narrador de “O vendedor de passados” do escritor angolano, José Eduardo Agualusa. Narrar a nossa história é também uma forma de a reescrever.

 

Maria Teresa Santos (voluntária da Associação Ser Mais Valia)

Bafatá, 4 de maio de 2022